O círculo é uma reta sem ambição

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Quis negar as palavras e agora sinto, sinto que deus desprendeu-se de mim a começar pelo meu anûs. Não tive tempo de te sentir sendo evacuado e, agora, rogo uma imensa piroca, nao tão veiosa, mas certamente farta que me faça compreende-lo em toda sua providencia. Me despi de toda fantasia e conheci o mundo, derrubei meus totens e caguei de forma excessivamente lassa. Quando te tinha em mim, depreendia tua forma de dueloscelestiais, desconhecia outro corpo e não peidava assim, com tanta facilidade. Era pura elocubração. Hoje em dia: desconheco as palavras e os significados, tua imensa cadeia é um conjunto de lapsos e ao máximo me excitam à masturbação. Sinto toda tua falta pulsar meu cu, e me entregar a única certeza que a forma do mundo talvez seja a forma das nossas genitalias. Quero dizer, hoje meu mundo se contorce e dobra, aperta-se como o olho de um cú. Ontem já fora rijo, compreendia-se na totalidade de sua boca e abrigava-se no seu chupar. Era seguro, mas escuro e oculto. Quando de alguma forma transava as palavras e fazia sexo com os anjos, não gozava porra, mas alguns confusos poemas. Hoje gozo: gozo só, gozo dentro de ti, gozo no teu peito e em todo teu corpo, mas tenho meus anjos e eles se entendiam.  Meus anjos, coitados, estão a tanto tempo só que já nao transam palavras, nao transam poemas, nao transam imagens; vivem todos só. Troquei, meus mil anjos por um punhado de shinigamis, por que jurei, jurei ter certeza que o mundo era deserto e que, ora, era seco assim que deveria ser. 


Hoje quero que de ti invistam-se anjos e celebrem meu anûs como tua morada, quero te chupar formas angelicais e discorrer sobre as formas de santificar teu nome. Quero que goze em mim suas palavras como que santo por me santificar.



segunda-feira, 23 de dezembro de 2024


[Exercício para uma nova semântica dos fluxos

1. Fantasia é construção de um espaço protegido - separado do mundo por mecanismos que o constroem algum tipo de ritualização.
2. De alguma maneira, diria que um represamento é sempre seguido de uma torrente, uma queda d'água da qual é possível extrair uma quantidade imensa de energia. Sendo o represamento uma formação  causual dada da topologia do espaço e não tem correspondente interno no fluxo das coisas. Uma grande queda d'água não significa só o aceleramento do fluxo, como também o revolver das coisas em qualidade caótica: como quando uma onda nos arrasta em cambalhotas e algumas partes dos nossos corpos navegam em questão de segundos das profundezas à superfície. A quantidade de energia liberada neste processo pode ser medida pela velocidade com que despenca um pequeno bote por entre as pedras, pela quantidade de volts que uma bobina acoplada ao fluxo pode gerar ou pela quantidade de palavras que um ser humano emite. Este fluxo pode igualmente destruir casas e aterrar famílias, quanto pode esquentar frangos de padaria por uma rede extensa de cabeamentos, ou talvez produzir alguma série de pinturas.
3. Um represamento também significa uma interrupção do fluxo e, portanto, a possibilidade de observação do próprio fluxo em suas variações e qualidades mutantes. Sem um represamento, sempre de formação natural -- próprio da causalidade das coisas -- e dado da topologia do espaço, um barco pode nunca saber que um rio navega em alguma direção, confiante de que é apenas um infinito fluxo do qual ou se aproveita a vantagem de escorrer-se tranquilamente ou enfrenta-se com a resistência de um remo ou tirando proveito do vento. Represar significa também a capacidade de reconhecer a qualidade cambiante do fluxo, olhar o fluxo. Hans Castorp represou-se por 7 anos antes de descer para a guerra.
 4. A água convida a criar, porque toma a forma do fluxo, é a imagem do fluxo. É por isso que há quem seja duro como pedra, e porque as pedras são paradas; e por isso que quem vive alheio é aéreo e o que é incompreensível é brisado - só a água é igualmente dura como a pedra e igualmente fluida como o vento. Só a água, as mãos tanto pegam quanto atravessam; os copos tanto contêm, quanto afundam, as garças tanto boiam, quanto mergulham. Não conheço um homem que, cansado de andar pelas pedras, nelas mergulhou; nem bem conheço uma mulher que tenha agarrado-se ao vento e guardado dele grandes quantidades. 
5. Água demais pode ser uma inundação; um fluxo grande de água pode ser um tsunami. Dizemos que estamos inundado, quando o que temos nos excede e o que há de contornado e delimitado ao fluxo é extrapolado. Como quando um sentimento inunda, ou como quando uma cidade inteira perde-se, submersa. 
        
     

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

quintal

Como se existisse algo que se compreendesse do mundo das formas, ou das coisas que dizem as palavras;

como se não fosse tudo, vã e simplesmente,

decorrência da certeza maior ou menor com que

regam-lhe, cultivam-lhe, na espera

de que desabroche em flores ou que

contente-se com que seja carpido

como mato, ou com que seja emaranhado

como cípo. 

Como se existesse algo, não fosse o certo de

que despida e abandonada,

desfeito o teto, e as paredes,

aberta tua casa, aos céus e ao vento,

fosse lentamente abrigar dentro de ti ,

todo o infinito de tristezas, que se postula

desde aqui até ai.

E em seu quintal, fossem outra coisa que não,

restos úmidos e mato alto a molhar seu pés.



quarta-feira, 23 de outubro de 2024

 quero cuidar de ti como quem cuida de um pequinino.


quero esquecer de todos mil santos e da morte daquele menino, quero esquecer que há poesia ou 

que as palavras se dobram no meio,

e já esqueci.


quero cuidar de ti, como quem cuida de um pequinino


quero que se vão ao escafundeu todos aqules mil poetas, e suas milhares de canções

quero que morram todas as profecias 


quero cuida de ti

e me faça esquecer que há qualquer coisa além,

de ti.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Sei mil formas de evocar o silêncio.

o copo de whisky na minha mão

não sei mais rir, não tenho mais quadril

você meio que rebola sua cintura

afinal, meu menino morreu acho que graças a deus.

não quero mais, nunca mais, olhar sua carcaça, por que bem sei
que ele não volta. Teu corpo morto, morreu bem longe de mim.

enterrei.

meu rosto sério

que te faz temer

um corpo elegante, uma mão calejada;

sei mil formas de evocar o silêncio:

traçando linhas ortogonais

e depois, as cruzando

formando uma malha

eu traço minha vida

e enfim, aquele menino morto
enterrado, o corpo
não quero mais ver

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

 Vou negar todos mils amores que tive em segredo, até que seja apenas um pequeno nó, amarrado no centro do meu peito. Vou odiar aquilo tudo que poderia ter sido, não fosse o rancor, não fosse a certeza triste de que sou e devo encarnar o silêncio e sumir como vazio. Vou negar que a vida é rica e florida porque um dia minha fantasia transbordou e eu afoguei. Vou negar. Vou empunhar com toda força este mastro que finco no meu vasto deserto onde me proclamei rei do meu imenso palácio, cravado na secura das pedras. Vou ter certeza de mandar cravar no monte mais alto do horizonte meu imenso rosto silecioso.

Quero te ver na minha frente, carrancudo, intransponível, distante. Quero te ver, quero te mirar, quero ver a extensão da tua aridez.

Quero que assim  eu chore. Por que toda vez que choro sinto meu corpo desinrigecer-se, perder-se, soltar-se. Queria escorrer deste olho até o olho de lá rasgando este deserto com o frenir caudaloso das lagrimas, queria chegar até lá. estar ao lado dos teuss rostos em todas suas infinitas incertezas. Queria ter estado ali, aos pés da minha imensa carranca, na vastidão do deserto; queria te conhecer de perto, como todos conheceram, sileciosa e árida carranca. Queria ter estado lá. 


Antes, havia tanto; hoje há tão pouco. E logo mais haverá menos ainda, na imensidão deste meu deserto, um imenso palácio, cravado na imensidão das pedras, no portão uma imensa estatua, como o portal de ishtar. Do outro lado, uma imensa carraca. 

Mas deixem me ir, não sei ao certo porque, preciso estar só a todo instante. e cada vez mais, só. não sei bem por que. Preciso erguer este palácio.



segunda-feira, 19 de agosto de 2024

 existir já é custoso de mais; já nos toma tempo e energia. Sei que é tão bonito o mundo, e seria tão estranho se não quisessemos nosso reflexo ainda mais bonito; sei que é tão natural querer o belo e se embelezar. Mas existir já é custoso de mais. Prefiro o silêncio. E quem sabe um dia, as coisas, por terem sido feitas por demais quietas não me façam suplicar novamente a Deus que me empreste um pouco das suas palavras. Como se fosse EU que ai posso me fazer existir, e não fosse simplesmente elas, as palavras, existindo na sua eterna indiferença. Escritores são os mais secretamente narcisistas. Como se esquessem que depois de tudo, o que resta de um nome são as letras e que a letra, sempre será, somente um risco, talvez não mais em uma pedra. Existir deve ser mais silencioso, por que nossos atos e gestos, estes sim nos pertencem. Amor, carinho, isto sim nos pertence: a vida, ela existe e nós existimos nela. O resto são só coisas, mesmo as palavras. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

O prazer de amar é ver ele mesmo, um organismo vivo mutando-se para comportar melhor a si próprio. Amar é tão real e é tão humano que toda vida se inagura somente depois do primeiro amor; antes a vida é feita de especulações. Por que a vida só começa verdadeiramente quando nos reconhemos enfim vulneráveis, frageís e nos vemos aos olhos e cuidados de outra pessoa.

Antes de amar, o outro é um grande espantalho, no qual se extendem todas nossas invisveis emanações - nosso imaginário, nossas projeções... Antes de amar, o outro é incompreensivel, por que desconhemos o amor. Amar é ceder enfim, é permitir-se permutar; e é permutando que o outro surje, enfim, compresível. 

O primeiro amor nada mais é que a primeira compreensão, a primeira vez que o outro se fez compreensível e por isso, no amor, somos tão compreensíveis nós mesmos. Por que é isto mesmo a natureza do amar: um organismo vivo, composto das partes de quem se ama, permutadas e compreendidas uma a outra. 

Compreender é agarrar-se, juntar-se. 

Por que toda compreensão é um ato de junção, toda comprensão é uma permuta. Somos incapazes de compreender sem partilhar. E por isto mesmo que sem amor, não há compreensão.

Quando enfim se ama, o outro se desnuda. Finalmente compreende-se o que há tanto tempo ocultava-se, perdia-se; o que era impossível acessar. E ai a vida defnitivamente se inaugura.

Quem nunca amou nunca compreendeu nada; continua só, navegando em certezas que não são nada além de fabulações do seu imaginário, formas confusas de negar o outro. É por isso que Cristo ama a todos, por que nos compreende.

Desde que tenho soldado, desde que tenho me aproximado do ferro e me familirizado com seu tempo, com suas propriedades, com sua dureza, mas também com sua maleabilidade; tenho compreendido as muretas das casas, visto como há esmero nos gradis antigos, repletos de contorcionismo; Tanto quanto, desde que meu amor se apresentou a primeira vez na minha frente, me olhando com um certo desdém e muito certa de defender-se de qualquer investida minha, comecei a compreender cade gesto seu. Ali comecei a, enfim, compreender alguém sem distância: me permiti permutar. Hoje a amo, por que a compreendo profundamente.

É também por isso que minha aversão ãs esculturas da Maria Martins deu lugar a uma profunda admiração: só não havia amado ainda, depois que amei, compreendi.




 

terça-feira, 30 de julho de 2024

derivadas e integradas


 um circulo é uma reta; uma onda é uma reta; uma reta é uma outra reta. 


uma reta é um ponto


o universo criou-se num instante; o mesmo instante para que converge toda a história do mundo no horizonte do meu olhar; é neste instante que vivo.


um instante, é um ponto


dois ponto fazem uma reta, quatro retas um quadrado, dois quadrados fazem caixas de papelão

como as que estão aqui do lado.


sonho esquisito



 sonhei eu e ela deitados na cama, ela se despedia. Chorava um pouco, mas falava com certeza:

- cansei de viver isso de nois dois, quero agora apenas te ver, de longe.

ela se comprimia enquanto eu chorava, não demorou para perceber que tinha lido as suas ultimas palavras, e que seu interior eu folheava agora, página a pagina. 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

 sei que as palavras de nada valem ao espirito, se não aos homens e aos seus pactos, porque desde que decretei dizer somente o sim ou o não, continuo a saber do que sempre soube. 

sei que as palavras só me servem para assegurar contratos; que só me prestam a selar acordos e descrever fatos; por que de todo resto um simples gesto me faz chorar. Sei, que aquele menino, muito novo, mal sabe da tristeza que causa. Porque mal sabe da tristeza do mundo que o envolve. 

- "Gabriel saiu correndo por ai, arranhou  Nevena". 

pouco antes era ela mesma, andando pelos corredores, acusando:

- "já me chamou de filha da puta". ------- sem mesmo saber da falsa gravidade com que lhe censurariam os palavrões. 

Não me atina, por que crianças brincam como animais: engolfam-se, envolvem-se, matam-se e nem se dão conta da ferida imensa que abrem no próprio peito; e outra vez, por simplesmente menos que uma olhadela choram copiosamente ou juram morte ao rival. Não sei, são como bixos, me parecem bixos: ali, dois imensos metros abaixo de mim. O mais alto deve ter algo como 1,20 cm. conto uns 25. eles andam e se mexem. Me fazem desacreditar em deus e saber que tudo é pura contingencia. Por que abrem a boca se não sabem o que falar? apenas hesitam, babam, gemem, fazem sons. São como bichos, me lembram chiuauas: me aflingindo com a imanente possibilidade de pisar, sem querer, em um deles.  

Vejo os de muito longe, e não entendo por que se mexem tanto; e no entanto, quase me puis aos prantos. No canto, vejo duas professoras se abraçando. Uma entra pela porta discretamente e ignora minha presença, apenas abraça longamente aquela que já estava lá. Fico em silêncio, quero ser imóvel, quero ser estátua. Não quero que me olhem, mas quero ver tudo. Sempre odiei ser visto. Ela chora, em disparada, como se esperasse o abraço: apenas entrega-se ao choro e ao abraço. Desvio o olhar, concentro-me em cortar papeis rigorosamente quadrados. O estilete tem que estar firme, não posso afrouxar a régua. A linha tem de ser firme. Ela me olha. Fui visto vendo e sinto o desespero de ver olhos marejados me encarando:

- "Ele tem dado trabalho... me parte o coração ver ele ocupando essa posição".

- "sim..." eu digo. Acho que isso basta. Finjo empatia. não sei o que responder quero apenas que minha pele se torne marmórea, que eu seja um gesso e que de seu braço seila, surja um chicote. Que me acerte as costa, isso sim: que não seja estátua, mas que grite vozes e me ponha pra trabalhar. Quero que não me demande estar ali, como humano que sou. Quero que me permita, por aquele breve periodo de tempo, me satisfazer com minha preciosa alienação. Se não, mal sabe ela, começo a inflar, inflar, inflar. Mas então penso naquele menino, mal o conheco, sei que agrediu duas outras crianças, sei que é preto e seu pai é branco. Não sei, me veio uma vontade de chorar. Penso no Gabriel, as crianças, seus colegas brancos, passam correndo, olham assustadas, gritam, enquanto ele se debate, tenta fugir da repreensão. Chuta uma professora, não importa mais nada. Penso naqueles olhares e Gabriel, arranhando como quem encara, chutando como quem, simplesmente, se irrita, ocupando aquela posição. Penso nas crianças correndo e gritando assustadas, com medos de novos arranhões, sem saber da tristeza do mundo que as envolve e da tristeza que causam.






domingo, 17 de março de 2024

 saber da certeza de Helena, e não ascultar nada mais além das formas de verificar sua veracidade. Deitar-se na cama nu, melado de porra, sonhando uma poltrona e um copo de whisky. ter certeza que o tempo carrega consigo, como quando abrimos os olhos e aquele canto, onde antes se anunciavam os primeiros fungos, já esta todo coberto de esporos e de podridão aveludada. Saber, que sozinhos, nossos quartos ocultam as estatiscas da vida, abrigam as fantasias da nossa unicidade; mas que os olhos de deus, sempre desvendam, no progredir da vida, o andar imútavel das coisas. Saber, como Helena bem disse: que por mais que se repitam as coisas, serão elas diferentes, por que, simplesmente, são feitas por nós. Que nossas poltronas tornarão-se camas, e despidos lembraremos dos nossos antigos ternos.  Feitos, homens, recordaremos, recordaremos. quando naquele canto tudo era tão branco, muito antes do primeiro esporo molecular riscar as paredes quanticas do mundo. Muito antes, eramos todos crianças  nem tudo apontava para que seguisse continuamente, como sempre se segue. Quando ainda não haviam  sido abertas as comportas da vida, antes de tudo isso. Antes do amor ser a certeza de um desenrolar no  tempo, e dos fungos amontuarem-se - com a precisão cientifica -  nos cantos úmidos de casa.

terça-feira, 5 de março de 2024

sei que o mundo é muito grande, mas meu quarto tem quatro cantos e entre eles uma infinidade de pontos.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

 a cada passo que dou sei que me distâncio mais e mais do meu ponto de origem. E agora olho o mundo e vejo um imenso funil, aqui, enfim, é onde tudo se encerra, onde muito cedo morrem abortados todos os sonhos. É logo ali, a imensa máquina, deglutinando. Alí, sua hélice mortal, posta discreta pela secura que convenientemente lhe empresta a antessala do seu silencioso funil. Sei que de aqui em diante, diante da vista ao pé do vortex - uma imensa pilha de fetos - não se caminha sem contrair violentamente as pálpebras, e segurar firmemente o dedo contra as orelhas, enquanto nos impelem sempre mais a frente, no vertinoso ritimo com que damos nossos primeiros passos. 


domingo, 14 de janeiro de 2024

Walquiria



 o olhar morto de Walquiria

diz, quer prontidão. Morta,

morte; putrefação.

Basta um seu olhar

e se recorta o tempo,

recorta meu peito

recorta tudo e me faz querer chorar.


Diz: Antonio, nao disperdice seu tempo

entre grampeadores e canetas marca texto.

Sublinhando e grifando.

Sou mãe e sei, 

a extensão que o mundo pode ter,

não se permita tão cedo,

morrer.







obs. ela realmente era uma walquiria. tem cpf. acredito na simbologia das coisas quando me dou conta desses acasos.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

amadurecer é uma forma de se esquecer que em algum momento quando nascemos nos prometeram que a vida seria mais do que corpos que se tornam encarnados e secos.  Em algum momento a promessa de um gesto irrefletido, não redundava na certeza tardia de que tudo é e continua igual: quando aquele homem de meia-idade tatuado não tinha certeza do fracasso total de todos seus sonhos. 

O mundo, para o bem da verdade, nem fracassa, apenas gradualmente desvela-se sem que cobre mistérios, nem que exija fogos e explosões, apenas carnifica-se, sempre e continuamente. Revela-se só na sua crueza e secura a toda hora, e nos pede silêncio. 

Como cair das fantasias, dispir-se e ficar nu; não sei, esquecer tudo que a mente fabrica e se deparar com o plano da carne e das coisas que a carne toca, outras pessoas e os seus jeitos. Saber que entre os castelos fabricados e as orgias de um mundo mirabolante, entre rios e jatos de água, há um irmão que se perdeu e a dúvida cruel a respeito da sua forma de amar. Não sei, tenho desconfiado dos poetas e dos pintores, tenho desconfiado de tudo que é poesia; tenho desconfiado de quem não fala simples e claramente sobre as coisas das gentes. Tenho desconfiado de tudo que é lustroso, tudo que não é assado. Tenho desconfiado, sinceramente, de tudo que não é gente, nas suas coisas e nas suas vicisssitudes. 

Em Maringá tudo é tão estranhamente estéril, tão arido: mas tudo esconde em algum lugar tanto sentimento. Não sei o que a gente pensa que sabe, desfilando certeza sem nunca ter tido a presteza de viver tudo que sente secar e assar. Não sei que beleza eu penso que conheço, quando me defronto com  a certeza de que nem uma das minhas palavras carrega qualquer sentido para aquelas pessoas. 

As palavras escondem tanta aridez... tenho desconfiado de quem se esconde nas palavras, de quem se esconde nas imagens: de quem não assume como as coisas são aridas. 

As pessoas se apaixonam sem palavras bonitas, as pessoas se apaixonam por um cu ou por uma buceta, as pessoas se apaixonam por um pau; as pessoas vivem e morrem sem que sintam, e cobram de quem sente pelo seu direito de não sentir; cobram que deixem de sentir, cobram o mundo inteiro que nada seja sentido a não ser sua imensa aridez. Deixar as coisas secando, charqueando.

sei que dentro de toda carne tem sangue, que a pele tem água e que os orgãos pulsam misteriosamente sozinhos, e ninguém me tira esta certeza. Mas quem não sabe? o mundo cobra com razão o direito de não sentir, e seca como tem de secar. Não querem que um jorre suculento enquanto os outros secam e desidratam; secam e com justeza apontam que na secura que se investe as coisas, é na secura que se pede que vivamos. e quando as coisas vivem secas entendemos a crueza do mundo, seco, seco.

O mundo e as coisas pedem que sigamos, como num imenso deserto onde nem ao certo apodrecem as carniças; elas apenas restam lá infinitamente, descançando enquanto vagueiam os urubus, os shinigamis, disfarçando ocultando. Pedem que continuemos, enquanto discretamente tentamos sondar nossos sonhos, lubrificando nossos antigos desejos. Assim nos pede, um amor maduro.