1. Fantasia é construção de um espaço protegido - separado do mundo por mecanismos que o constroem algum tipo de ritualização.
2. De alguma maneira, diria que um represamento é sempre seguido de uma torrente, uma queda d'água da qual é possível extrair uma quantidade imensa de energia. Sendo o represamento uma formação causual dada da topologia do espaço e não tem correspondente interno no fluxo das coisas. Uma grande queda d'água não significa só o aceleramento do fluxo, como também o revolver das coisas em qualidade caótica: como quando uma onda nos arrasta em cambalhotas e algumas partes dos nossos corpos navegam em questão de segundos das profundezas à superfície. A quantidade de energia liberada neste processo pode ser medida pela velocidade com que despenca um pequeno bote por entre as pedras, pela quantidade de volts que uma bobina acoplada ao fluxo pode gerar ou pela quantidade de palavras que um ser humano emite. Este fluxo pode igualmente destruir casas e aterrar famílias, quanto pode esquentar frangos de padaria por uma rede extensa de cabeamentos, ou talvez produzir alguma série de pinturas.
3. Um represamento também significa uma interrupção do fluxo e, portanto, a possibilidade de observação do próprio fluxo em suas variações e qualidades mutantes. Sem um represamento, sempre de formação natural -- próprio da causalidade das coisas -- e dado da topologia do espaço, um barco pode nunca saber que um rio navega em alguma direção, confiante de que é apenas um infinito fluxo do qual ou se aproveita a vantagem de escorrer-se tranquilamente ou enfrenta-se com a resistência de um remo ou tirando proveito do vento. Represar significa também a capacidade de reconhecer a qualidade cambiante do fluxo, olhar o fluxo. Hans Castorp represou-se por 7 anos antes de descer para a guerra.
4. A água convida a criar, porque toma a forma do fluxo, é a imagem do fluxo. É por isso que há quem seja duro como pedra, e porque as pedras são paradas; e por isso que quem vive alheio é aéreo e o que é incompreensível é brisado - só a água é igualmente dura como a pedra e igualmente fluida como o vento. Só a água, as mãos tanto pegam quanto atravessam; os copos tanto contêm, quanto afundam, as garças tanto boiam, quanto mergulham. Não conheço um homem que, cansado de andar pelas pedras, nelas mergulhou; nem bem conheço uma mulher que tenha agarrado-se ao vento e guardado dele grandes quantidades.
5. Água demais pode ser uma inundação; um fluxo grande de água pode ser um tsunami. Dizemos que estamos inundado, quando o que temos nos excede e o que há de contornado e delimitado ao fluxo é extrapolado. Como quando um sentimento inunda, ou como quando uma cidade inteira perde-se, submersa.
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