voltei hoje lendo um pequeno ensaio do Mann sobre o Sono - doce sono! - com a vista cansada e exausto. Achei irônico, primeiro, o encontro tão coincidente; ultimamente ando aceitando alguns sinais divínos: Tenho ouvido muito misticismo da boca do Leo. Sempre sobra às coitadas das marionetes o fardo de suportar longas exposições sobre as formas alquímicas de desvelar o real, dessas coisas, um tanto demode, que os velhos dramaturgos ( e digo velho, porque dramaturgo, por sí só, já é espécie em extinção) encontram como forma de singularização.
Bom, dia desses vi um adolescente japones improvisando ao som das Amazonas do Donato, me vi ali: como que preso olhando aquela figura estranhamente rigida tentando transmitir algum swing com sua disciplina nipônica e um trambolho enfiado na boca - era um saxofone ou um trompete.
Pouco antes, reencontrei um texto besta sobre a linha, minha paixão pela linha e toda aquele interminável lerolero: deitado na cama, terminei a leitura e vi cair pela janela - e juro por Deus - brilhar de um jeito muito único, um fio perdido de uma teia de aranha. Pensei na hora algumas coisas sobre a tal da alma e o tal do Deus, que, naquele momento, pareciam no meu gozo discursivo, coisa irmanada, ou algo assim. Sei que essa única linha resolveu um angústia que carreguei por alguns meses; e juro, não é papo de missionário e nem de falsa poesia.
Terça, ai sim, foi em forma mesmo de poesia, o enviado, divino arcanjo: joão cabral de melo neto, nada espirituoso ou de beatificante, mas por hora, Deus faz isso bem, cumpriu o dever de mensageiro divino. Pela manhã, me mortificava - como um bom nipô-romântico - pela constrangedora inciativa de expôr uma tentativa, fracassada, de poesia: queria, por em forma versada, um sonho recorrente - que pela arte exegética pagã da psicanalise, tornou-se legível (não antecipo seus significados, mas digo, se amarra ao resto) - com tsunamis. (rirá o japones, imprudentemente poético, fadado a sonhar poéticas japonesas...).
Ando fissurado pela água e suas propriedades aquosas: tateando uma besteira aqui, outra ali, pensei - espirituoso - que deveria haver algo de simbolismo projetando-se no meu inconsciente; fiz valer aquelas máximas antigas, dos tais quatro elementos, e pensei estar atravessando em sonho, um encontro com o que há de primordial na minha constituição éterea. Enfim terça, eis que - para repetir em paródia bíblica - João Cabral de Melo Neto vem dizer coisa parecida, com infinita maior elegância, do que arrisquei dizer em forma confusa: diz a um tu, que desconheço, ter a forma da água horizontal, quando em pé, e da água vertical quando deitada. Não me perdi muito tentando encontrar paralelismos entre linhas verticais e horizontais - até porque, sabem os matemáticos e as mais adiantadas crianças - não há. Mas, pensei curioso que há algum sinal divino a cantar - não pelos ares, mas pelas água - essa poética aquosa.
Tenho tido pesadelos com tsunamis, com água correndo - rios - pantanos e formas lodosas; que são, graças a deus, o principio da calmaria. Quando os sonhos se acalmam e o ritmo - suponho - dos espamos das minhas palbebras diminui, é porque sonho, em matéria de sonho, surgir alguma densa e milenar rocha; mesmo que por debaixo de muita água.
Vi, em sonho, um rio com a superfie prateada, lusindo bem polido, o sol; desse jeito que é amanhecer na praia. Meu pé afundava no lodo, saindo da angústia da água e me gerava aflição. Pulei de superficie em superficie tateando cada uma com calma: depois do lodo meus pés sentiram um chão pastoso, com aspecto de leite podre; disso, passei a uma igual em desconforto, mas que, para alívio, dava para uma firme rocha; de onde tive forças, enfim, para me projetar ao plano de terra e correr aflito contra o sentido da correnteza.
E bom, com o espirito - ou a tal da alma - atinada para as coincidências topei hoje, terrivelmente sonolento, com o doce sono! Fiz a leitura flertando os sonhos, sabidamente aguados; li e terminei rápido. Dai, me veio um sentimento único de sentir. Algo ali reverberava em mim; e me dei conta que, como sempre reverbera - só e, realmente só - quando leio Mann. E me dei conta, em despertar místico para as coincidências, que no fundo no fundo, há um maciço cristalino; rochoso e milenar - que direi, surpreendentemente, sou eu! E Ele reverbera todo no seu timbre único. E que, sim, sendo quatro elementos a tudo organizar: tenho algo de rochoso, terroso e; deus dirá, linear! E é o jeito moralizante do romance, o jeito de dilatar o tempo com clareza devida de um texto linear, acima de tudo, que me faz gozar e gozar; expelir e jorrar lava por todos os cantos; com a certeza cientifíca que este liquido vai voltar a se solidificar.