O círculo é uma reta sem ambição

domingo, 14 de janeiro de 2024

Walquiria



 o olhar morto de Walquiria

diz, quer prontidão. Morta,

morte; putrefação.

Basta um seu olhar

e se recorta o tempo,

recorta meu peito

recorta tudo e me faz querer chorar.


Diz: Antonio, nao disperdice seu tempo

entre grampeadores e canetas marca texto.

Sublinhando e grifando.

Sou mãe e sei, 

a extensão que o mundo pode ter,

não se permita tão cedo,

morrer.







obs. ela realmente era uma walquiria. tem cpf. acredito na simbologia das coisas quando me dou conta desses acasos.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

amadurecer é uma forma de se esquecer que em algum momento quando nascemos nos prometeram que a vida seria mais do que corpos que se tornam encarnados e secos.  Em algum momento a promessa de um gesto irrefletido, não redundava na certeza tardia de que tudo é e continua igual: quando aquele homem de meia-idade tatuado não tinha certeza do fracasso total de todos seus sonhos. 

O mundo, para o bem da verdade, nem fracassa, apenas gradualmente desvela-se sem que cobre mistérios, nem que exija fogos e explosões, apenas carnifica-se, sempre e continuamente. Revela-se só na sua crueza e secura a toda hora, e nos pede silêncio. 

Como cair das fantasias, dispir-se e ficar nu; não sei, esquecer tudo que a mente fabrica e se deparar com o plano da carne e das coisas que a carne toca, outras pessoas e os seus jeitos. Saber que entre os castelos fabricados e as orgias de um mundo mirabolante, entre rios e jatos de água, há um irmão que se perdeu e a dúvida cruel a respeito da sua forma de amar. Não sei, tenho desconfiado dos poetas e dos pintores, tenho desconfiado de tudo que é poesia; tenho desconfiado de quem não fala simples e claramente sobre as coisas das gentes. Tenho desconfiado de tudo que é lustroso, tudo que não é assado. Tenho desconfiado, sinceramente, de tudo que não é gente, nas suas coisas e nas suas vicisssitudes. 

Em Maringá tudo é tão estranhamente estéril, tão arido: mas tudo esconde em algum lugar tanto sentimento. Não sei o que a gente pensa que sabe, desfilando certeza sem nunca ter tido a presteza de viver tudo que sente secar e assar. Não sei que beleza eu penso que conheço, quando me defronto com  a certeza de que nem uma das minhas palavras carrega qualquer sentido para aquelas pessoas. 

As palavras escondem tanta aridez... tenho desconfiado de quem se esconde nas palavras, de quem se esconde nas imagens: de quem não assume como as coisas são aridas. 

As pessoas se apaixonam sem palavras bonitas, as pessoas se apaixonam por um cu ou por uma buceta, as pessoas se apaixonam por um pau; as pessoas vivem e morrem sem que sintam, e cobram de quem sente pelo seu direito de não sentir; cobram que deixem de sentir, cobram o mundo inteiro que nada seja sentido a não ser sua imensa aridez. Deixar as coisas secando, charqueando.

sei que dentro de toda carne tem sangue, que a pele tem água e que os orgãos pulsam misteriosamente sozinhos, e ninguém me tira esta certeza. Mas quem não sabe? o mundo cobra com razão o direito de não sentir, e seca como tem de secar. Não querem que um jorre suculento enquanto os outros secam e desidratam; secam e com justeza apontam que na secura que se investe as coisas, é na secura que se pede que vivamos. e quando as coisas vivem secas entendemos a crueza do mundo, seco, seco.

O mundo e as coisas pedem que sigamos, como num imenso deserto onde nem ao certo apodrecem as carniças; elas apenas restam lá infinitamente, descançando enquanto vagueiam os urubus, os shinigamis, disfarçando ocultando. Pedem que continuemos, enquanto discretamente tentamos sondar nossos sonhos, lubrificando nossos antigos desejos. Assim nos pede, um amor maduro.