O prazer de amar é ver ele mesmo, um organismo vivo mutando-se para comportar melhor a si próprio. Amar é tão real e é tão humano que toda vida se inagura somente depois do primeiro amor; antes a vida é feita de especulações. Por que a vida só começa verdadeiramente quando nos reconhemos enfim vulneráveis, frageís e nos vemos aos olhos e cuidados de outra pessoa.
Antes de amar, o outro é um grande espantalho, no qual se extendem todas nossas invisveis emanações - nosso imaginário, nossas projeções... Antes de amar, o outro é incompreensivel, por que desconhemos o amor. Amar é ceder enfim, é permitir-se permutar; e é permutando que o outro surje, enfim, compresível.
O primeiro amor nada mais é que a primeira compreensão, a primeira vez que o outro se fez compreensível e por isso, no amor, somos tão compreensíveis nós mesmos. Por que é isto mesmo a natureza do amar: um organismo vivo, composto das partes de quem se ama, permutadas e compreendidas uma a outra.
Compreender é agarrar-se, juntar-se.
Por que toda compreensão é um ato de junção, toda comprensão é uma permuta. Somos incapazes de compreender sem partilhar. E por isto mesmo que sem amor, não há compreensão.
Quando enfim se ama, o outro se desnuda. Finalmente compreende-se o que há tanto tempo ocultava-se, perdia-se; o que era impossível acessar. E ai a vida defnitivamente se inaugura.
Quem nunca amou nunca compreendeu nada; continua só, navegando em certezas que não são nada além de fabulações do seu imaginário, formas confusas de negar o outro. É por isso que Cristo ama a todos, por que nos compreende.
Desde que tenho soldado, desde que tenho me aproximado do ferro e me familirizado com seu tempo, com suas propriedades, com sua dureza, mas também com sua maleabilidade; tenho compreendido as muretas das casas, visto como há esmero nos gradis antigos, repletos de contorcionismo; Tanto quanto, desde que meu amor se apresentou a primeira vez na minha frente, me olhando com um certo desdém e muito certa de defender-se de qualquer investida minha, comecei a compreender cade gesto seu. Ali comecei a, enfim, compreender alguém sem distância: me permiti permutar. Hoje a amo, por que a compreendo profundamente.
É também por isso que minha aversão ãs esculturas da Maria Martins deu lugar a uma profunda admiração: só não havia amado ainda, depois que amei, compreendi.

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