o homem inventou grandes pontes, viadutos de concreto. Suspendeu da terra, passando pelo ar e pela água, rios e mares: firmes, maciços e colossais. Obras da certeza humana, da precisão da engenharia e da grosseiria da ambição. Firmamos sobre a terra milenar, sobre as rochas, nosso projeto de eternidade. Não soubemos invertar ainda grandes ondas, nem os tornados e a ventania, mas em concreto ousamos postular nossa criação, ousamos discorrer sobre a crostra terrestre, sobre a dureza das rocha e sobre o que há de mais eterno ao alcance da nossa visão. Soubemos emular os grandes canyons, as grandes montanhas e as rochas colossais; como não soubemos imitar as ventanias, fabricar nuvens carregadas e construir tsunamis.
O homem em pesadelo, entretanto, sonha: o grande vento e o tempo, lentamente, a corroer sua criação, silencioso: uivando e cravando em concreto a indiferença da sua sentença. Um dia, sem mais, - não será o concreto desmanchando, não serão as particulas se desfazendo - o colosso ruirá unissono: sepulcral. E nós, nas pontes, nos viadutos, iremos buscar refúgio no mar, saltaremos pelo ar: em desespero, veremos que mesmo os blocos grosseiros de concreto caem navegando o tempo e o vento. E afundam no fundo do mar.
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Nós desconhecemos as ruínas, nós excomungamos a morte: levamos o fim ao limite da abstração. Os Incas cresceram às sombras da ruína Wari; os Europeus, saudaram as ruínas gregas e romanas como templo, traçaram por cima dos antigos caminhos romanos as direções do seu tempo; Quando há 200 anos, surgiram as antigas ruinas mesopotâmicas, era o passado bíblico posto real e findo. Mais que real, os povos ameríndio viveram sua ruína na concretude do corpo e da pele.
Só nosso tempo desconhece a ruína: as pirâmedes não testemunham o passado morto, mas o turismo - torto. No grande túmulo da Piramde de Gizé, há mileanos, celebraram a morte, antigos faróis, esperavam a visita à sóis: são algumas dezenas de turistas - chineses, japoneses, americanos, franceses - que encurralados, atolados, quem apertados no estreito caminho do além. Onde morreram secos judeus, onde queimaram vivos, desidratados: andam, agora, entediados turistas - chineses, japoneses, americanos, franceses .
Foi por medo da morte que inventamos os museus: queremos que tudo nos pertença, nada nos escape, que não haja limite à compreensão. Decretamos o fim das coisas: seu ingresso ao nosso pretenso eterno presente. Conservamos as paredes de antigos afrescos romanos, as tumbas dos antigos reis, os cocares e as argilas, porque pertencem à História: pertencem ao tempo passado incorporado. Esquecemos que a História é total, que todo fenômeno é um processo global; e a unidade do acontecimento é a particula molecular de todo um longo andamento. Como selar as bordas do tempo? Como postular um passado, findo, distânte e impertencente, portanto, abstrato e impotente; como preservar um afresco a integridade da história, se a todo tempo lhe cruzam e lhe cravam mais memórias; se preservar é discorrer no tempo - um ato, um fato - como podemos querer ali.. (continuar) .