O círculo é uma reta sem ambição

terça-feira, 16 de maio de 2023



tinha dois caminhos

não escolhi nenhum,

terminei com as pernas abertas e uma terrível confusâo:

quando eu gozo, eu ponho pra fora.

Mas o que eu ponho, eu penso pra dentro.


quando eu morrer vão dizer:


na verdade, 

nada. 

Não tinha nada, nem uma coisa terminada.

do homem acabado,

este sim, um dia vão dizer:


na verdade,

nada.

Isto depois, é claro, que seu último amigo morrer,

até lá vão dizer:

- vejam como é tudo acabado. como é bom ver assim, terminada.




este homem, tenho certeza, segue bem o seu caminho:

pôe tudo pra fora, e nada pra dentro.




segunda-feira, 15 de maio de 2023

domingo, 14 de maio de 2023





é engraçado,

o tempo passa, eu mudo, 

o mundo fica diferente,

te esqueço, te ponho de lado

conheço outras mil, me apaixono,

reparo que te desconheço

que nunca te conheci

e que entre eu e você sempre foi

eu,

e nunca teve 

você




Não importa, o tempo passa,

quando vejo

o mundo acontecer  em silêncio

vejo

o verde

vejo

a cidade

vejo 

algo que não sei bem o que

vejo 

algo que chamo de beleza

vejo 

você.



 o homem inventou grandes pontes, viadutos de concreto. Suspendeu da terra, passando pelo ar e pela água, rios e mares: firmes, maciços e colossais. Obras da certeza humana, da precisão da engenharia e da grosseiria da ambição. Firmamos sobre a terra milenar, sobre as rochas, nosso projeto de eternidade. Não soubemos invertar ainda grandes ondas, nem os tornados e a ventania, mas em concreto ousamos postular nossa criação, ousamos discorrer sobre a crostra terrestre, sobre a dureza das rocha e sobre o que há de mais eterno ao alcance da nossa visão. Soubemos emular os grandes canyons, as grandes montanhas e as rochas colossais; como não soubemos imitar as ventanias, fabricar nuvens carregadas e construir tsunamis.


O homem em pesadelo, entretanto, sonha: o grande vento e o tempo, lentamente, a corroer sua criação, silencioso: uivando e cravando em concreto a indiferença da sua sentença. Um dia, sem mais, - não será o concreto desmanchando, não serão as particulas se desfazendo - o colosso ruirá unissono: sepulcral. E nós, nas pontes, nos viadutos, iremos buscar refúgio no mar, saltaremos pelo ar: em desespero, veremos que mesmo os blocos grosseiros de concreto caem navegando o tempo e o vento. E afundam no fundo do mar.


                                                                                    *

Nós desconhecemos as ruínas, nós excomungamos a morte: levamos o fim ao limite da abstração. Os Incas cresceram às sombras da ruína Wari; os Europeus, saudaram as ruínas gregas e romanas como templo, traçaram por cima dos antigos caminhos romanos as direções do seu tempo; Quando há 200 anos, surgiram as antigas ruinas mesopotâmicas, era o passado bíblico posto real e findo. Mais que real, os povos ameríndio viveram sua ruína na concretude do corpo e da pele. 

Só nosso tempo desconhece a ruína: as pirâmedes não testemunham o passado morto, mas o turismo - torto. No grande túmulo da Piramde de Gizé, há mileanos, celebraram a morte, antigos faróis, esperavam a visita à sóis: são algumas dezenas de turistas - chineses, japoneses, americanos, franceses - que encurralados, atolados, quem apertados no estreito caminho do além. Onde morreram secos judeus, onde queimaram vivos, desidratados: andam, agora, entediados turistas - chineses, japoneses, americanos, franceses .

 Foi por medo da morte que inventamos os museus: queremos que tudo nos pertença, nada nos escape, que não haja limite à compreensão. Decretamos o fim das coisas: seu ingresso ao nosso pretenso eterno presente. Conservamos as paredes de antigos afrescos romanos, as tumbas dos antigos reis, os cocares e as argilas, porque pertencem à História: pertencem ao tempo passado incorporado. Esquecemos que a História é total, que todo fenômeno é um processo global; e a unidade do acontecimento é a particula molecular de todo um longo andamento. Como selar as bordas do tempo? Como postular um passado, findo, distânte e impertencente, portanto, abstrato e impotente; como preservar um afresco a integridade da história, se a todo tempo lhe cruzam e lhe cravam mais memórias; se preservar é discorrer no tempo - um ato, um fato - como podemos querer ali.. (continuar) . 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Transe

 

Transe 

os carros

em particulas de infinito desejo, abertos

para toda maquinaria, despidos em

fulguroza, toda oculta, engenharia:

em ritmo pulsante, São Paulo

e eu discutiamos as traquitanias

do novo mundo,

enquanto meu corpo morimbundo

restava todo imundo,

encostado a cabeça no ar

e a janela com olhar

cintilante

parecia começar a me encarar.


Meu desejo perscultava mil anjos celestiais;

Meu corpo contorcia-se em mil chicotadas de seres bestiais,

Meus olhos viam nove, só nove automovéis e a rua quase vazia

e via e ria, enquanto transavam os carros 

suas maquinárias infernais

e dobravam-se as pernas em estados transcendentais.

gozavam os automovéis, em altos

gemidos roucos e os ônibus

carregando os loucos

 tremiam em insana alegria:

minha mente concebia

sua primeira 

fantasia.






quinta-feira, 4 de maio de 2023

tratado da geometria do homem.

Considerem um espaço plano, limpo e ausente de tudo. Nesse plano imaginem algumas formas que se sucedem sucessivamente:


1. Um ponto. É o principio, é desejo perfeitamente retido;

2. Uma reta. É um acontecimento, é desejar;

3. Um circulo. É uma reta sem ambição, é ausência de desejo;

4. Uma espiral. É reta feita círculo a contra-gosto. 

 (a) desejo retido em si, caminho da loucura; redondamente oposta 

ao círculo, é ambição irrefreada posta, cruelmente, a circular. 

ou (b) desejo por objeto perdido, caminho de uma loucura branda. 

É a linha circunspecta, andando em círculos, querendo tornar a ser linha. 

5.  Uma cruz. É uma reta desesperada em busca da redenção.

6. Um quadrado. É a reta enquadrada, a reta de bem.