sei que as palavras de nada valem ao espirito, se não aos homens e aos seus pactos, porque desde que decretei dizer somente o sim ou o não, continuo a saber do que sempre soube.
sei que as palavras só me servem para assegurar contratos; que só me prestam a selar acordos e descrever fatos; por que de todo resto um simples gesto me faz chorar. Sei, que aquele menino, muito novo, mal sabe da tristeza que causa. Porque mal sabe da tristeza do mundo que o envolve.
- "Gabriel saiu correndo por ai, arranhou Nevena".
pouco antes era ela mesma, andando pelos corredores, acusando:
- "já me chamou de filha da puta". ------- sem mesmo saber da falsa gravidade com que lhe censurariam os palavrões.
Não me atina, por que crianças brincam como animais: engolfam-se, envolvem-se, matam-se e nem se dão conta da ferida imensa que abrem no próprio peito; e outra vez, por simplesmente menos que uma olhadela choram copiosamente ou juram morte ao rival. Não sei, são como bixos, me parecem bixos: ali, dois imensos metros abaixo de mim. O mais alto deve ter algo como 1,20 cm. conto uns 25. eles andam e se mexem. Me fazem desacreditar em deus e saber que tudo é pura contingencia. Por que abrem a boca se não sabem o que falar? apenas hesitam, babam, gemem, fazem sons. São como bichos, me lembram chiuauas: me aflingindo com a imanente possibilidade de pisar, sem querer, em um deles.
Vejo os de muito longe, e não entendo por que se mexem tanto; e no entanto, quase me puis aos prantos. No canto, vejo duas professoras se abraçando. Uma entra pela porta discretamente e ignora minha presença, apenas abraça longamente aquela que já estava lá. Fico em silêncio, quero ser imóvel, quero ser estátua. Não quero que me olhem, mas quero ver tudo. Sempre odiei ser visto. Ela chora, em disparada, como se esperasse o abraço: apenas entrega-se ao choro e ao abraço. Desvio o olhar, concentro-me em cortar papeis rigorosamente quadrados. O estilete tem que estar firme, não posso afrouxar a régua. A linha tem de ser firme. Ela me olha. Fui visto vendo e sinto o desespero de ver olhos marejados me encarando:
- "Ele tem dado trabalho... me parte o coração ver ele ocupando essa posição".
- "sim..." eu digo. Acho que isso basta. Finjo empatia. não sei o que responder quero apenas que minha pele se torne marmórea, que eu seja um gesso e que de seu braço seila, surja um chicote. Que me acerte as costa, isso sim: que não seja estátua, mas que grite vozes e me ponha pra trabalhar. Quero que não me demande estar ali, como humano que sou. Quero que me permita, por aquele breve periodo de tempo, me satisfazer com minha preciosa alienação. Se não, mal sabe ela, começo a inflar, inflar, inflar. Mas então penso naquele menino, mal o conheco, sei que agrediu duas outras crianças, sei que é preto e seu pai é branco. Não sei, me veio uma vontade de chorar. Penso no Gabriel, as crianças, seus colegas brancos, passam correndo, olham assustadas, gritam, enquanto ele se debate, tenta fugir da repreensão. Chuta uma professora, não importa mais nada. Penso naqueles olhares e Gabriel, arranhando como quem encara, chutando como quem, simplesmente, se irrita, ocupando aquela posição. Penso nas crianças correndo e gritando assustadas, com medos de novos arranhões, sem saber da tristeza do mundo que as envolve e da tristeza que causam.
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