O círculo é uma reta sem ambição

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Quatro Mensagens

a) Do seu palacete você me adorna, me envolve nos seus barroquismos sem perceber sua suposição de que partilho dos seus frisos e ornamentos.

b) Sentada em pensamentos difusos, te sopro algum canto antigo; você segue seus ouvidos até que te assusto com um berro.

c) Deitado do teu lado, te abraço e te escuto. Antes que adormeça, aconchego suas angústias na superfície dos meus sonhos. 

d) Te sigo com os olhos cruzando uma rua, te enxergo me olhando de soslaio. Sento ao teu lado na caminhote e escuto o barulho do motor. Ronco árvores estalando e sopram refrescantes fumaças; cortam todos os outros carros, um velho alemão dirige nossos sonhos, enquanto desvendo formas de cuidar de todo aquele resto que não serve a nenhuma literatura 


sábado, 18 de outubro de 2025

o que me segura de pé são duas pernas compridas e finas; uma confusa ética nipônica do trabalho e minha mania de grandeza

o que me faz deitar são olhos pesados, a descrença em toda em qualquer instituição, uma certa dificuldade de me desfazer da minha rudeza.

Curiosidade me faz ficar de cócoras, euforia me faz dar saltos. Prefiro estar acompanhado - estar deitado deixa de ser tão anêmico. Prefiro cantos a espaços abertos. Não acredito em superfícies polidas nem lustradas; já gostei menos de superfícies brilhosas, hoje sou indiferente. Tenho dificuldade de me decidir entre lirismo e destruição; gosto de castelos bonitos, mas também gosto de destruí-los. Sou a favor de algumas neuroses, partidário de certas compulsões de organização: sou contra energia bruta e ou sem contornos. Acredito na linguagem e nas palavras, mas sei que os signos são gulosos e querem engolir nosso mundo; prefiro pratos de bife a refeições ornamentadas. Sou contra a intelectualidade de gabinete, estantes e revistas de cultura. Sou contra a universidade, o museu, sou contra as pessoas em geral. Não gosto de muitas. Acredito na disciplina, mas a disciplina não acredita em mim. Sou a favor das linhas retas, desde que manifestem sua personalidade. 

Tenho preguiça de textos extensos. Acredito na culpa mais do que no desejo e culpo todo e qualquer psicanalista que queira dizer que o certo é o contrário. Não acredito em esclarecimento, limpeza, sabonetes, louças limpas; acredito em poeira e pó. Penso biblicamente: do pó que viemos e ao pó  voltaremos. Prefiro, inegavelmente, a despesa ao exercício construtivo.

Não sirvo para ser sozinho e tenho, agora que entendo o que é isso, medo do mundo. Tenho medo de me filiar a coisas, a grupos, a códigos, a pessoas; tenho medo de não pertencer a nada, nem ao mundo. Pássaros voam em grupo, formigas andam juntas, aranhas são espécimes peçonhentas: algumas vivem em espécies de colônias, outras são só. Formigas às vezes se perdem, cachorros são formas carentes. Não acredito em coincidências, nem que nada no mundo não manifeste algo oculto: cachorros são a forma da nossa carência, camas são a forma da nossa preguiça, mesas são a fortaleza da família. Poltronas são gostosas e servem para escrever textos maiores; textos são a forma de paixões. 

Fantasio muito zigurates, o portal de Ishtar, a secura mesopotâmica. O Japão, para mim, é uma extensão infinita de campos de arroz; Cazaquistão é a porta do Inferno e terra da broncura. Não me atraio pela África, pela Europa, pelas Américas, nem pelo Leste Asiático. Prefiro ver a vastidão das plantações de soja, o maquinário agrícola e os enormes silos do que o norte da Itália. Dubai é uma terra de videogame, e São Paulo é minha casa.

Não processo nada que seja postiço, não suportaria o middle-west norte-americano, mas sentiria um reconforto familiar em uma feira agrícola no Brasil. Não gosto de militantes universitários, marxistas, nem de punks; não gosto de aristocracias às avessas. Me dou bem com cínicos, intelectuais que vestem preto, pessoas que dormem mal e tomam muito café. Consigo lidar com meninos, mulheres mais velhas, estudantes de letras. Em geral, não gosto de artistas; prefiro arquitetos e filósofos. Prefiro shopping centers a vernissages, estádios de futebol a eventos de teatro, prefiro cinemas a parques, prefiro sebos a universidade. Não gosto de shows. 

Tenho mais fé na moral da minha tia que contrabandeia vinho do Paraguai do que de pessoas que falam 'querido'. Não gosto de quem demonstra afeto como forma de educação, mas gosto de abraços e de carinho.

 

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

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A luz do meu quarto é mais que quente, é vermelha. E do outro lado da janela, uma grande empena, dois homens azulados engolfam-se, como que beijam-se e lutam pelo controle de uma bola de futebol americano. Deus me deu imagens claras e quer que de minha parte cumpra só executar a associação dos termos, das imagens e recolher os sinais de um jogo simbólico da vida. 

Te beijar foi bom, confortável e familiar. Teu beijo é um beijo de loucura e de melancolia, teu corpo é a forma condensada dos meus pensamentos; ou sou eu que pertenço às entranhas ocultas das suas tripas. Colho os sinais, como quem confia no caminho que se abre e se apresenta, e que pede, simplesmente, que se trilhe. Renego, definitivamente, qualquer ilusão de autonomia, de independência, de autoria: os carros e as pessoas comportam-se como ondas, o trânsito propaga-se aos poucos, enquanto seus pés me aceleram lentamente. 

Te beijar é como que abrigar uma certeza de que me amarro a coisa outra que me carrega, me põe em curvas disposto a acelerar cavalos de pau. Rudemente, escuto o ronco dos carros, vejo escapamentos pendurados nas paredes dos prédios, vejos loucos camimhando sem seus cachorros e descrevendo as mesmas rotas de sempre. Lírico, penso nas praças, nas ruas calmas e afastadas do centro, onde tudo ocorre com mais vagar. Mas, dessa vez, seu lugar e seu beijo não pertencem às árvores quietas e ao vento soprando leve; aprendi a querer amar em tua forma de máquina, bafando fumaça boca a boca.

 te beijo e te confidencio: sua boca é um grande escapamento



domingo, 20 de julho de 2025

Viver em plena ignorância significa o que exatamente: abster-se de existir? Viver como quem nega a todo instante o nascimento de algo novo? Quer dizer, o que significa viver como um ignorante ou, de outro modo, o que significa viver como quem sabe, se não assumir alguma ordem de valoração que exista entre as coisas que existem inegavelmente em todos nós e que a todos os instantes querem existir - porque é essa a natureza das coisas: diferir, mover-se, compor-se por afinidade ou fugir por aversão. Por que sempre dizem da infinitude do pequeno e da infinitude do grande por via de uma irmanação de coisas afetadas de lirismo; ou dizem das coisas que - por negar estas afetações - têm a forma de escatologias, de elegias ao cinismo ou à devassidão do sexo. É que sim,  as coisas sempre se complicam em revelar ruídos dissonantes; mas, de toda forma, são sempre esses ruídos querendo dizer uma inversão da ordem da valoração das coisas; para os quais importa que sejam as coisas valoradas em alguma ordem. E que há de tão difícil em não acreditar em ordem alguma, se não no princípio que ordena o movimento das coisas.

Que há de tão errado em acomodar-se e esperar do que é cômodo os segredos do universo: as grandes filosofias não cabem no movimento de um peão? A matéria de que é composto o espírito do universo não vive impregnada em diferentes formas em todos os corpos? Será que a máquina do mundo não recalcou se de ser tantas vezes desprezada, que não abriria seus segredos bem no meio do hall de um shopping center, ou mesmo dentro de um par de sandálias da sidewalk? Não é questão de inversão, nem  negação, é simples, mais simples, de que adianta quererem investir tanto esforço em cobrar do mundo algum tipo de coerência valorosa.

E pior, certo, a política e tudo mais. 

Nada que se fale - desde que transmutaram todas as palavras em modos de abrir as bocas e de dizer as coisas -  presta a Deus se não a atestar as nossas perversas relações, as violências e tudo mais; então, meu bem, vamos policiar todos os jeitos de falar e empregar os esforços em uma justa e devida cirurgia das nossas bocas. Certo, concordo e estou de acordo, mas e daí, que presta todas nossas bocas harmonizadas em posição de dizer a justeza do mundo e de todos os povos? Vamos agora dizer então maravilhas e toda história terá se encerrado; é isso que quer nossa eterna teleológica filosofia; nos convida e nos impõe imanência até o talo porque quer afirmar a veracidade de suas eternas transcendências. Ora, quem disse que o mundo quer justiça e igualdade? As coisas não se movem porque nos move a história; se não por que operam pelo princípio de todas as coisas: diferem, movem-se, compõem por afinidades, e fogem por aversão. Não há mundo perfeito que se faça de matéria imperfeita e não há perfeição que seja sentido para o qual ordenar nosso viver, se não por que, no todo quase perfeito, há ainda um ruído a ser amplificado na cadeia infinita das coisas. 

Lutar pelo que nos toca o afeto e, claro, não ser um idiota de querer negar a importância concreta das coisas que violam a vida. Mas também não aceitar as certezas para onde sempre querem empurrar a vida, e que nos negue sim uma verdadeira imanência, assentada na desordem e no caos e nos princípios que ordenam os movimentos. De onde que não faz sentido crer na ingenuidade daqueles que enchem o peito para contar as coisas do mundo, dos que conjuram orgulhosos e arrogantes o desenhos espirais das críticas, dos que investem tempo e vida em afundar-se nas partículas do mundo, falando de minúcias buscando encontrar alguma verdade; o mundo move-se a todo instante sem que haja qualquer jeito de prever seus movimentos.

Os loucos são todos mais sinceros que qualquer um cínico que escreve textos empregados em escrever genealogias. A ciência é uma farsa porque seus heróis eram loucos e casaram com o mundo porque amavam o diabo. Ser ignorante é uma dádiva porque significa não acreditar na mentira de que somos capazes de não viver de mentiras.





sábado, 21 de junho de 2025

 investigar

traquitanas; engenhocas; gambiarras; gatos

segunda-feira, 16 de junho de 2025

 Esquecer, esquecer de novo, esquecer melhor;


esquecer, essa é a verdadeira dádiva. 


Quando estavamos mortos lembravamos de tudo;


Nascidos podemos nos esquecer que o amor é falho e que as paixões não duram


lembrando, dizemos,


vamos morrendo denovo.


Não Lembrar antes da hora.


Esquecer, esquecer de novo, esquecer melhor

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Acelerar, transar Padre Antônio e o Papa Francisco, orar aos peixes; transar Angela Merkel, e mil e quinhentas putas; Fazer sexo com um diplomata, furar tantas outras roscas, rosquear um macho, ser macho, ser fêmea; perfurar parafusos Chipboard, Flangeados, Cabeças de Panela. Destilar erudição: Rosca Máquinas, Roscas Soberbas, amar parafusos como se ama pássaros. Gozar na boca do Papa Francisco. Fazer um pacto com o diabo; desfazer, suplicar a Deus por perdão, conceder. Orar aos parafusos.





sábado, 19 de abril de 2025

 a escultura para organizar


a pintura para perambular

quarta-feira, 2 de abril de 2025

É por tanto te temer que digo que tu não tem forças. É por saber que é tu que me nomeia, que prefiro ficar calado. 

Quando são minhas mãos que te criam em silêncio, te entrego sacrifícios e te dou formas mil. 

E de tua boca, descem os mandamentos que gravo para ti, em uma pedra qualquer.







segunda-feira, 3 de março de 2025

 Deus fez tudo desimportante,

quando disse ao lobo-guará que seria só como mais um golden retriver, que mordiscasse nossos braços e grunisse amor por um cuidador qualquer;

Deus me abençoou com a liberdade,

quando me fez desejar que a vida não fosse empurrada por uma linha a que chamam de história, e que o mundo ruísse e revelasse como que no nada se boia e nada, como numa piscina.

Deus nos deu amor,

quando me mostrou que os olhos dela só pedem meus braços, que escondida debaixo da coberta não existe nada além de seu corpo quente e suado; e que nossas bocas só precisavam dizer beijos - e nada mais. 

Deus é o verbo,

quando me pediu silêncio, e disse que deixasse ele dar nome às coisas e que não fosse eu - e qualquer outro - acreditar no atrevimento de dizer o nome das coisas.

Por que Deus me disse e mostrou,

que o lobo-guará só é mais um golden-retriever e que meu amor não quer palavras bonitas.

domingo, 5 de janeiro de 2025

old lady goes to a church


old lady goes to a church


When i was the frostpiece of God's work

life was crazy and sometimes 

podia boiar na água do mundo 

flutuar movéis e ver tua cabeça tão distante

pensar pensamentos soprado dos céus

transando querubins lindas fodas e 

gozando teus sinos e enroscados adornos

but as time passes, i feel

that i love her and am not young anymore;

don't know if is too early for not caring: 

os livros, os filmes, os poemas, but you know

i don't.

i don't care and my phantasie

fantasmogou-se

Every thing that i have is a big 

old church, built com muitas rocks, 

that's you. Without golden columns and 

a ceiling open to the sky.



Nowadays, i sit there -

as an old lady, felling my knee, looking into 

Cristo face, asking him, what should be the way we eat, 

the way we fuck, the way we love.