A luz do meu quarto é mais que quente, é vermelha. E do outro lado da janela, uma grande empena, dois homens azulados engolfam-se, como que beijam-se e lutam pelo controle de uma bola de futebol americano. Deus me deu imagens claras e quer que de minha parte cumpra só executar a associação dos termos, das imagens e recolher os sinais de um jogo simbólico da vida.
Te beijar foi bom, confortável e familiar. Teu beijo é um beijo de loucura e de melancolia, teu corpo é a forma condensada dos meus pensamentos; ou sou eu que pertenço às entranhas ocultas das suas tripas. Colho os sinais, como quem confia no caminho que se abre e se apresenta, e que pede, simplesmente, que se trilhe. Renego, definitivamente, qualquer ilusão de autonomia, de independência, de autoria: os carros e as pessoas comportam-se como ondas, o trânsito propaga-se aos poucos, enquanto seus pés me aceleram lentamente.
Te beijar é como que abrigar uma certeza de que amarro-me a coisa outra que me carrega, me põe em curvas disposto a acelerar cavalos de pau. Rudemente, escuto o ronco dos carros, vejo escapamentos pendurados nas paredes dos prédios, vejos loucos camimhando sem seus cachorros e descrevendo as mesmas rotas de sempre. Lírico, penso nas praças, nas ruas calmas e afastadas do centro, onde tudo ocorre com mais vagar. Mas, dessa vez, seu lugar e seu beijo não pertencem às árvores quietas e ao vento soprando leve; aprendi a querer amar em tua forma de máquina, bafando fumaça boca a boca.
te beijo e te confidencio: sua boca é um grande escapamento