O círculo é uma reta sem ambição

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Senta. Olha o espelho diante da privada, escuta um louco ou um cachorro gritando, há um forte cheiro de esgoto no ambiente. Na sua mesa, alguns livros, copos e uma caneca. Pela manhã escreveu uma carta de amor, de noite volta a ler:

...e se te pedi e te solicitei encanto ou fantasia; e se te pedi e solicitei pacto ou benção. E agora prefere ir, digo com clareza: seu cachorro não me engana. Mefisto me disse algo oculto, e desapareceu. E agora apreendi a te solicitar, te invocar e abrir alguma morada, mas ainda era dele da onde vinham segredos.  Escrevo por  testamento agora para atestar sua partida, resta lidar com o que fica, que são: os copos, as canetas a vista da janela prédios e homens trabalhando a sensação da minha bunda encostando a cadeira, esta blusa manchada. Mais acima o sol, antes fosse essa espiral ascendente, não fosse meu anus vazio, meus dedos, esta cadeira e as palavras que são mais pensadas que ditas, que não surgem nem se invocam. E você segue como, não sei bem: me disse e pediu que me envergonhasse. Minhas fantasias te excederam e agora recolhe o lençol da sua cama, vê a rua pela janela, pelo vidro fumê. Em cima dela, um toldo com a forma da sua mãe e o contorno do seu carro; sua estante são pilhas de papeis, elas ali, sem fantasias, seguras e definitivas, carregam, digamos, riscos. Desce e não sei bem o que, percebe-se ali, acho, vê a sala, a televisão. Se eu te dissesse do teu santo, do santo invertido e do que seu cachorro tem a te dizer, saberia ao mesmo tempo que é verdade e mesmo assim julgaria mais louco do que sou. Mas bem foi você mesmo que me alertou que cada palavra atinge o mundo e lhe dobra o espaço, que entre os copos e minha bunda, esta sirene tocando e os carros passado ali no fundo, cada palavra atinge frontalmente o mundo. Assim que pudesse dizer e ordenar seus passos simplesmente anotando algumas sentenças seria certamente dizer alguma loucura ou algo de insano; não fosse os livros que tanto lemos e que tanto nos dizem, não fosse a forma mais sisuda com que nos querem alguns romances...


 A ordem as coisas a estrutura do tempo do mundo, pura desordem do lado de cá, pratos se acumulam, na mesa canetas, lápis um remédio para o nariz; quero controlar sua estrutura, alcançar o cachorro do outro lado da rua, sentar-se e latir. Retenho tua força ou te jogo para fora no corpo daquela mulher. 

Sua voz é grossa e geme alto na cama, pede que a espanque, pede que a jogue com força contra o chão enquanto meu corpo é magro, fraco, e meu pau fino, mas te seguro e ergo um Hércules, firme forte, voraz, selvagem. Seu segredo: seu desespero. Para onde iria aquela força e toda aquela vontade de destruição.

Criaturas da noite, um tufão. Cinco, seis caixas rolando pelo chão. Um sino, aquela paragem, caipiras o interior; paraíba o sertão - desconheço. Fabricas vazias, antigos tornos mecânicos, chaves de boca piche e a graxa na mão, um pano limpa seus dedos. Entende algo, essa voz, te descreve uma cena: um loja de antigas peças de tornearia, engrenagem helicoidais, rolamentos, peças de encaixe muita poeira e o chão da cor da sua mão. Seu filho foi à igreja, usa óculos mexe no celular, seu pai acreditou no que te disseram fez uma lar em cima daquela oficina. Serralheria e vidraçaria, não percebeu a irônia? Foi força do destino, sua esposa crente e certamente crente, ao final da rua cuidam de um imenso galpão: uma concessionária ou um supermercado, na verdade uma igreja desativada. Um velho senhor, só isso que sei, o entregou as chaves e deixou em suas mãos. Desculpe, entende algo, essa voz, me organiza. Organiza a quem: sentado, aflito, não entende o efeito de sua última paixão. Um santo invertido, uma coruja: minerva, lilith? Seu pai, sua verdadeira paixão: hoje um senhor, sua tristeza é mais doce que de sua mãe. Sua voz mais incerta e tenta encontrar sua razão, sua forma, seu jeito de aconselhar. Seu filho incerto, parece um equívoco, nasceu cresceu, não previram como seguiria, seria rico, farto e assim mesmo, portanto, inútil, incapaz, indolente. Por favor, não peça compreensão, não peça sentido e nem razão. Já lido excessiva e irrestritamente com a segurança do meu pensamento e não aceito nem comporto... estou a beira de ruir. Entende algo, essa voz, senta e te descreve:  um menino frágil quer a todo custo encontrar sua razão, senta na sua frente agora enquanto atiça sua vocação. Entende algo, essa voz: quando me ler estará salva ou antes erguerá seu juízo: não sabe se permanece ou se se foi, e se souber, esta voz, seguir adiante? Quando me ler me compreende? Entende ou me escuta, essa voz, como os murmúrios daquela mulher: Sentada, embriaga segura uma cachaça na mão, o que me diz: essa voz. Algo assim, o olha e não ousa o tocar, provoca como bebe, malandra canta. É jovem, parece ter quarenta anos, não mora na rua, canta, sempre canta, às vezes berra, às vezes anda, chama. E vocês, agora me entendem? a voz pergunta, entende, mais calma, a voz pensa, a voz diz ou a voz voz: me entendem. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 tentei mirar no nosso amor, mas acertei na nossa desgraça.