Senta. Olha o espelho diante da privada, escuta um louco ou um cachorro gritando, há um forte cheiro de esgoto no ambiente. Na sua mesa, alguns livros, copos e uma caneca. Pela manhã escreveu uma carta de amor, de noite volta a ler:
...e se te pedi e te solicitei encanto ou fantasia; e se te pedi e solicitei pacto ou benção. E agora prefere ir, digo com clareza: seu cachorro não me engana. Mefisto me disse algo oculto, e desapareceu. E agora apreendi a te solicitar, te invocar e abrir alguma morada, mas ainda era dele da onde vinham segredos. Escrevo por testamento agora para atestar sua partida, resta lidar com o que fica, que são: os copos, as canetas a vista da janela prédios e homens trabalhando a sensação da minha bunda encostando a cadeira, esta blusa manchada. Mais acima o sol, antes fosse essa espiral ascendente, não fosse meu anus vazio, meus dedos, esta cadeira e as palavras que são mais pensadas que ditas, que não surgem nem se invocam. E você segue como, não sei bem: me disse e pediu que me envergonhasse. Minhas fantasias te excederam e agora recolhe o lençol da sua cama, vê a rua pela janela, pelo vidro fumê. Em cima dela, um toldo com a forma da sua mãe e o contorno do seu carro; sua estante são pilhas de papeis, elas ali, sem fantasias, seguras e definitivas, carregam, digamos, riscos. Desce e não sei bem o que, percebe-se ali, acho, vê a sala, a televisão. Se eu te dissesse do teu santo, do santo invertido e do que seu cachorro tem a te dizer, saberia ao mesmo tempo que é verdade e mesmo assim julgaria mais louco do que sou. Mas bem foi você mesmo que me alertou que cada palavra atinge o mundo e lhe dobra o espaço, que entre os copos e minha bunda, esta sirene tocando e os carros passado ali no fundo, cada palavra atinge frontalmente o mundo. Assim que pudesse dizer e ordenar seus passos simplesmente anotando algumas sentenças seria certamente dizer alguma loucura ou algo de insano; não fosse os livros que tanto lemos e que tanto nos dizem, não fosse a forma mais sisuda com que nos querem alguns romances...