O círculo é uma reta sem ambição

domingo, 20 de julho de 2025

Viver em plena ignorância significa o que exatamente: abster-se de existir? Viver como quem nega a todo instante o nascimento de algo novo? Quer dizer, o que significa viver como um ignorante ou, de outro modo, o que significa viver como quem sabe, se não assumir alguma ordem de valoração que exista entre as coisas que existem inegavelmente em todos nós e que a todos os instantes querem existir - porque é essa a natureza das coisas: diferir, mover-se, compor-se por afinidade ou fugir por aversão. Por que sempre dizem da infinitude do pequeno e da infinitude do grande por via de uma irmanação de coisas afetadas de lirismo; ou dizem das coisas que - por negar estas afetações - têm a forma de escatologias, de elegias ao cinismo ou à devassidão do sexo. É que sim,  as coisas sempre se complicam em revelar ruídos dissonantes; mas, de toda forma, são sempre esses ruídos querendo dizer uma inversão da ordem da valoração das coisas; para os quais importa que sejam as coisas valoradas em alguma ordem. E que há de tão difícil em não acreditar em ordem alguma, se não no princípio que ordena o movimento das coisas.

Que há de tão errado em acomodar-se e esperar do que é cômodo os segredos do universo: as grandes filosofias não cabem no movimento de um peão? A matéria de que é composto o espírito do universo não vive impregnada em diferentes formas em todos os corpos? Será que a máquina do mundo não recalcou se de ser tantas vezes desprezada, que não abriria seus segredos bem no meio do hall de um shopping center, ou mesmo dentro de um par de sandálias da sidewalk? Não é questão de inversão, nem  negação, é simples, mais simples, de que adianta quererem investir tanto esforço em cobrar do mundo algum tipo de coerência valorosa.

E pior, certo, a política e tudo mais. 

Nada que se fale - desde que transmutaram todas as palavras em modos de abrir as bocas e de dizer as coisas -  presta a Deus se não a atestar as nossas perversas relações, as violências e tudo mais; então, meu bem, vamos policiar todos os jeitos de falar e empregar os esforços em uma justa e devida cirurgia das nossas bocas. Certo, concordo e estou de acordo, mas e daí, que presta todas nossas bocas harmonizadas em posição de dizer a justeza do mundo e de todos os povos? Vamos agora dizer então maravilhas e toda história terá se encerrado; é isso que quer nossa eterna teleológica filosofia; nos convida e nos impõe imanência até o talo porque quer afirmar a veracidade de suas eternas transcendências. Ora, quem disse que o mundo quer justiça e igualdade? As coisas não se movem porque nos move a história; se não por que operam pelo princípio de todas as coisas: diferem, movem-se, compõem por afinidades, e fogem por aversão. Não há mundo perfeito que se faça de matéria imperfeita e não há perfeição que seja sentido para o qual ordenar nosso viver, se não por que, no todo quase perfeito, há ainda um ruído a ser amplificado na cadeia infinita das coisas. 

Lutar pelo que nos toca o afeto e, claro, não ser um idiota de querer negar a importância concreta das coisas que violam a vida. Mas também não aceitar as certezas para onde sempre querem empurrar a vida, e que nos negue sim uma verdadeira imanência, assentada na desordem e no caos e nos princípios que ordenam os movimentos. De onde que não faz sentido crer na ingenuidade daqueles que enchem o peito para contar as coisas do mundo, dos que conjuram orgulhosos e arrogantes o desenhos espirais das críticas, dos que investem tempo e vida em afundar-se nas partículas do mundo, falando de minúcias buscando encontrar alguma verdade; o mundo move-se a todo instante sem que haja qualquer jeito de prever seus movimentos.

Os loucos são todos mais sinceros que qualquer um cínico que escreve textos empregados em escrever genealogias. A ciência é uma farsa porque seus heróis eram loucos e casaram com o mundo porque amavam o diabo. Ser ignorante é uma dádiva porque significa não acreditar na mentira de que somos capazes de não viver de mentiras.