te prometeram um mundo e fizeram parábolas bíblicas que justificassem o andar dos seus passos, contaram segredos e te confidenssiaram olhares, de todos tipos: desejosos, invejosos, apaixonados, olhares de desaprovação e de exame; te deram uma vida, em palavras e em promessas. Te contaram histórias, mas do passado herdou a consciência de um fim, encerrado, terminado e que, ainda assim, se seguiu continua e eternamente. E te deixaram ver que os que nascem hoje já nascem à sombra de morte e que mesmo assim, andam felizes e alegres, porque já nasceram mortos e posto que, assim, não tem tempo e nem chegam a conhecer que a forma de que nasceram era a forma de uma coisa morta. Como o são os fungos e os insetos que se achegam à carne podre, vivem enquanto sua carne apodrece.
E de todo resto o que sobra, carniça fede e o fedor mal toca seus poros, que se tapam, que se cobrem; e deslizam todos os outros na lisura da pele, mal seus dentes tocam e afundam no resto epidermico onde o fedor fede. Seus olhos nos vêem, palavra por palavra e as escolhem como peles a que aderem, sem que vejam seus poros. Falam seguros, sempre seguros, palavra por palavra, com pele lisa e brilhante. Contam o tempo das coisas, olham sem que os olhos se afundam; caminham sem que tropessem e continuam a acreditar. Como quer que sigamos, se as palavras que dizem não derrapam no próprio sebo e se limpam, obsessivamente, enquanto cubrem a matéria orgânica de que é feita.
como seguem de pé, sem que despequem, como se levantam sem que sintam o próprio corpo desgrudando-se do chão, como fodem sem que se curvem para dentro ao primeiro lapso que anuncie que seu gozo põe ao mundo a gosma de que tanto, tanto, fazem para livrar-se; e se adensam em sí, a materia espessa do mundo, e se tomam para sí todo o visco, não o põe a fora o resto viscoso de que são feitos. Cada corpo seria como a forma espessa e pegajosa do mundo: um pimentão e um tomate, vicejam muito cedo, e ao toque do seu dedo anunciam o churume de que são feitos. Sua pele derreteu-se na pele do mundo, cobriu-se de poeira e viço e abriu-se em poros.
Sem comentários:
Enviar um comentário