O círculo é uma reta sem ambição

domingo, 3 de maio de 2026

 



Há duas formas das coisas se completarem: reificadas, ou devidamente alinhadas nos jogos dos espelhos. A natureza de toda instituição é sua demanda de encerramento, completude e limites; suponho, porque articulam uma quantidade muito grande de trabalho, vontade e desejo, e tem de ser restritivas. Disto, se enseja o paradoxo de que, certamente, não se escapa: adentrar a esfera das instituições é implicar-se em uma esfera de circulação que supõe regras claras e um jogo de igualdades/paridades que supõe, também, completude e limite. Não há certamente resolução à cisões de que se dizem arte/vida, público/privado etc. Claro, se confundem, claro se torcem, mas não deixam, mesmo em graus altos de promiscuidade, de constituirem instânicas distintas. Toda vida que quer se tornar arte lida e se implica com uma tradição mais ou menos extensa e que é, nada mais, que a forma reificada de um conjunto de tentativas. Tradição e instituição são duas instâncias semelhantes, mas bem distintas: a instituição sustenta-se em uma tradição, mas pode temporáriamente se alhear, fingir se alhear; a tradição se insiste e se permanece eternamente como si mesma, incorporando a cada passo, mais partes a extensão volumosa de seu corpo. Mesmo a modernidade, ou todo tipo de negatividade, é imperada por uma imperativo da tradição e, se alheada dela, é pela ausência de consciência. Francamente, advogar pelo principio do novo, da novidade, da ruptura é, simplesmente, advogar pelo imperativo de uma tradição em detrimento de outra tradição. A tradição precisa de uma única consciência que seja histórica. O que me dizem é que seria mais franco abrir-se e permitir - o que acho que acontece hoje mesmo e poucos percebem - reconhecer que clarificado que repusemos, simplesmente, uma tradição a outra, uma instituição a outra, nossa distância com o Antigo é da mesma nulidade do que a distância ao próprio presente. Aqui, semprem constroem e formulam modelos, sem ter em vistas que o antigo, aqui principalmente, inventou-se a pouco tempo: nossa Catedral gótica é hoje vista, do alto do viaduto, junto ao imenso monolito do Templo de Salomão. Quantos dos daqui não vivem mais proximos de David, da Mesopotâmia, de Ur, do que de qualquer do nosso passado recente e moderno, do que de, digamos, Duchamp, Guimarães, etc. Que ruptura esta posta senão a de que substitui uma tradição pela outra tradição, e porque somos nós que vivemos fora os dogmas, o imperativo e a sombra da tradição? É simples de reconhecer, uma tradição pode se comprimir em poucos segundos e dele extrair uma infinide de milisegundos. Porque respeitar suas hierarquias? Porque seguir sua tradição? Porque acreditar em suas insistituições? Toda verdade tradição se inaugura de uma consciência presente que entende que tradição é, simplesmente, poder. E que como átomos, não muito de componentes, simplemente de forças operando a todo instânte nos atraindo e repelindo. 

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