O círculo é uma reta sem ambição

terça-feira, 7 de novembro de 2023

muito medo

Meu palpite para o verdadeiro apocalipse, para derradeira revelação: quando as coisas do mundo, a matéria, não resistir mais à vontade e à imaginação. Às vezes acho que o tempo é só o universo se fazendo sozinho, e que tudo que o homem toca é só um jeito da natureza se fazer.

Me apavora descobrir como meu mundo é feito: Meu mundo mesmo, das coisas cotidianas.

A mesa do meu quarto, na qual escrevo, é feita de pinus, envernizado e encerado; consigo hoje imediatamente visualizar como, bruta a madeira, aparelhada e cortada, parafusaram aqui e ali, instalaram dobradiças e rodízios, e puseram na ordem do dia esta pequena escrivaninha. Sei, não porque fui alfabetizado e dai ter lido algum manual, mas porque vi, não só um trabalho, distante e abstrato, mas um tipo de trabalho que conheço fazendo minha mesa ficar de pé. Tanto quanto, desde então soube que nem mesmo um homem experimentado, senhor de suas mãos, que conheça cada veio do seu palmo e mova com destreza milimetrica seus dedos, é capaz de por de pé uma única mesa, tão desnecessária. Faltariam às suas mãos o calor de um forno para fundir os metais dos parafusos, e os circuítos para por em funcionamento qualquer parafusadeira barata. Passei toda minha vida sem saber, sem realmente saber, que minha mão, ela sozinha, jamais seria capaz de construir uma única mesa...

Hoje sei que nem minhas pernas ando sem que me pertube a certeza de que há outros tantos para dobrar cada uma das minhas juntas. E que minhas mãos que tanto amo em sua artesania não são mais que carne frouxa sozinhas. Cada passo meu todo o universo é evocado: todo o universo, em sincrônia, me pede as contas, e me diz que posso seguir. A cada passo exigo de Deus uma resposta: e a ele, toda vez que ando, toda vez que pulso, por mais ligeiro que seja, é dada a escolha entre me devolver um sim ou um não. 

       tenho medo do o, tanto quanto do sim extendindo no máximo de sua extensão. Tenho medo do peso as pernas um dias venham a ter, das minhas mãos frágeis e quebradiças, dos milhões de passos que cobre uma única mesa; de que um único homem não seja mais capaz de nada. Há de chegar um dia que olhando o mundo qualquer um dê de ombros, certo de que com seu corpo não chegarrá com nem mesmo ao túmulo.

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