Deter a atenção às coisas, aos móveis, ao barulho da
televisão, ao mundo que acontece num ritmo que não pede cambalhotas. Reencontrar
no corpo um jeito de dispor a vida sem que afetem ânimos de toda espécie,
sem fabricar dueloscelestiais entre anjos e demonios. Relembrar o andar disperso da
criança, deitar no sofá da vida e ver, naqueles dias de domingo, a vida acontecer:
o jeito sereno das sonecas do meu pai, o jeito despojado de cantar da minha mãe;
tudo fluindo sem peso. Sem jamais perguntar se na tranquilidade do olhar, no seu
jeito tranquilo de dormir, não se ocultavam instransponíveis ao olhar da
criança, as suas imensas angústias. Recuperar a realidade de um olhar, na mais
farsesca inocência; sem pedir atestados, sem desenrolar filosofias, sem querer
recobrar à vida coerência das suas partes. Saber que no céu só se projetam fantasias.
Descer, abrir os olhos e ver: uma mulher velha, cabelos
brancos e um olhar sempre triste; um homem quieto, sempre confortável nas
margens de sua insondável angustia; outro homem, tão quieto, tão quieto, que em
sua boca cresceram pelos e seu rosto, uma imensa carranca, endureceu em olhar
severo. Pedir a deus, paciência. Cobra-lo o direto de um olhar tranquilo, despir-se
das fantasias e reconhecer meu silêncio entre silêncios; como queito, sou eu, o silêncio, a embranquecer cabelos e engolir as margens cada vez mais estreitas do insondável. Não permitir jamias a dureza da carranca, nem o abrir do abismo.
Vencer o silêncio sem berros, sem o desespero histérico; ouvir
o ruido da televisão, minha mãe chamando a distância. Sem cambalhotas, sem
anjos, sem demônios.
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