O círculo é uma reta sem ambição

domingo, 20 de agosto de 2023

 

Deter a atenção às coisas, aos móveis, ao barulho da televisão, ao mundo que acontece num ritmo que não pede cambalhotas. Reencontrar no corpo um jeito de dispor a vida sem que afetem ânimos de toda espécie, sem fabricar dueloscelestiais entre anjos e demonios. Relembrar o andar disperso da criança, deitar no sofá da vida e ver, naqueles dias de domingo, a vida acontecer: o jeito sereno das sonecas do meu pai, o jeito despojado de cantar da minha mãe; tudo fluindo sem peso. Sem jamais perguntar se na tranquilidade do olhar, no seu jeito tranquilo de dormir, não se ocultavam instransponíveis ao olhar da criança, as suas imensas angústias. Recuperar a realidade de um olhar, na mais farsesca inocência; sem pedir atestados, sem desenrolar filosofias, sem querer recobrar à vida coerência das suas partes.  Saber que no céu só se projetam fantasias.

Descer, abrir os olhos e ver: uma mulher velha, cabelos brancos e um olhar sempre triste; um homem quieto, sempre confortável nas margens de sua insondável angustia; outro homem, tão quieto, tão quieto, que em sua boca cresceram pelos e seu rosto, uma imensa carranca, endureceu em olhar severo. Pedir a deus, paciência. Cobra-lo o direto de um olhar tranquilo, despir-se das fantasias e reconhecer meu silêncio entre silêncios; como queito, sou eu, o silêncio, a embranquecer cabelos e engolir as margens cada vez mais estreitas do insondável. Não permitir jamias a dureza da carranca, nem o abrir do abismo.

Vencer o silêncio sem berros, sem o desespero histérico; ouvir o ruido da televisão, minha mãe chamando a distância. Sem cambalhotas, sem anjos, sem demônios. 

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