O círculo é uma reta sem ambição

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Os que vivem da substância da palavra e que insistem por efeito da crença em levar-se adiante, por acreditarem mesmo, indo em frente que a insistência desdobra sua substância e toma de seu sulco fartos e demorados goles, mas se encontram, enfim, com a matéria seca do que restou, prostrados na própria secura, são os que se deitam em solo árido e a sua volta, pórtircos anunciam adornadas e rebuscadas voltas e lhe apresentam firmes e certas toda sorte de engenhosas dialéticas, frente ao qual conseguem satisfeitos dobrar-se um a um os outros, resolutos e decididos, enquanto resta ainda mais do que a própria aspereza, a convocatória ao desencontro: do que o mundo mesmo suga sedento o suco de toda palavra de modo que não sobra nada, apenas seu corpo equivocado. 

Resta a matéria drenada das palavras: drenaram-se os amores, pelo esquecimento; drenaram-se as paixões, pela realidade. Resta firmar-se nas palavras para dizer o que resta quando secam-se as coisas. Mas secaram ainda esta palavras, deitaram-lhe sobre o sol para que charqueassem mais e mais e andou-se e andaram-se homem todos carregando por todo canto, cada pedaço único do extenso charco sem que pedissem nada além da resistência que se impusessem aos dentes. Mastigar, mastigar, mastigar; cada palavra mastigar, mastigar, mastigar insistêntemente, sem que haja vontade desejo ou fome senão um tempo extenso que não se curva nem aceita com que se dite o ritmo de seus passos, mastigar, insistêntemente, mastigar, até que estejam mastigadas por inteiro e não tendo mas destinação se não se encaminhar às suas próprias fezes.

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