O círculo é uma reta sem ambição

sexta-feira, 6 de março de 2026

duas cenas


bela vista




Seu olho era saltado, o rosto seco, com alguma gordura, muitos víncos e manchas na pele. Disse com raiva e desespero:

- E eu atrasada para o trabalho e
a peste aqui do meu lado

anda logo, diabo.

cruzavam, em sentido oposto, dois jovens com passos acelerados, corpo certeiro, mente enlatada em café. A fala ruidoza atraiu um dos olhares que rapidamente viu, confusa, nascer na criança um sentimento fundo de vergonha e culpa. Lembrou-se da forma como os olhos infantis do seu antigo amor há pouco tempo tinha o indagado, breve e assustado: - o que quer de mim? Sem que soubesse responder, compadeceu com o olhar, mantendo o corpo parcialmente torcindo, enquanto dava passos cada vez mais distantes da criança. 
Tivesse tempo e não fosse o andar acelerado com que seguia seus passos, não visse de soslaio e já a distância com que flerta, seguro, a trovoada, se deixaria ali, nu, e partiria para o dia com que muito longe prostrou-se no céu a primeira núvem da tempestade. 
Assim seguiam os dois jovens, as promessa de futuro que há pouco tempo despontaram no horizonte.

-

uma obra

- esse barulho, será que não é que ele que te faz querer mijar?

Que tanto me pergunta e por que me toma como aquele que elegeu adorar? E de que falamos quando amontuamos feitos de que ainda não temos nenhum em mãos? Descobriram agora que, ao seu lado, sempre andou noutro ritmo os meus passos; e só agora se pergunta que ainda tem a dizer, qualquer um, que seja descompassado e simplesmente fora do ritmo? E a batida, com que marcam nossos passos, neste corredor no qual andamos empolgados, de uma lado a lataria e de outro um prédio nem tão antigo assim, não te faz querer mijar?  

É que no fim desse corredor o que quero te contar, não tem efeito de feito algum a se somar aos outros que marcam nossos passos, é, isso sim, minha história de amor, ali dobrando a esquina. É porque sempre me escutou tão bem, a que deve ser a você para quem, apoiado diante dos carros, endereço em segredo que amor não se cessa nem se resseta. Porque sei, que se escuta assim tão bem  é porque no fundo não lhe atingem as palavras por dentro de onde elas se escondem, e que elas batem e rebatem no ritmo com que a saem e voltam de boca a boca. E se a ela amo agora, te digo e confidencio, é porque não sei bem como dizer que quanto mais fundo vou às palavras e as procuro verdadeiramente dentro de mim, encontro elas presas a outro alguém de que, por sua vez, sei não saber mais dizer, nem soletrar em letras amor com minha boca. E me venho assim prostrado nos últimos dias, como quem sabe certo que sua boca diz amar com um tom que lá dentro não sabe dizer; e que por sua vez, o que vem lá de dentro, ele mesmo também, já não sabe mais chegar à boca. De modo que de canto a canto bate as paredes essa coisa que não tem nem a forma de palavra e nem do que ela deveria dizer, enquanto acende e piscam as luzes de um corredor e me põe, passo a passo, no ritmo do seu andar. 





















este  barulho

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