miguel e eu assumimos que nem o maior dos ermitões aprende e gosta de conhecer pelo simples gostar de conhecer. Quando disse a primeira vez: - sou apaixonado por História, não sabia as paixões ocultas que mediavam meu desejo, e nem parei e nem pensei que não se apaixona por história, porque não se estuda às mordidas, nem se lê com a boca e nem com o tato; e que o que os livros nos dão a ler, as mãos não decifram linhas. Quem já morreu de tesão sabe: a gente tenta encontrar jeito de comer as palavras; de sentir a carne da voz e encontrar como que aquele ponto misterioso em que os polos magnéticos se repelem: sentir aquela tensão matérica surgida do nada, nas palavras.
E bem, a gente ama e se apaixona pela carne em que se encarna a História, as palavras e o que tem para conhecer. Um dia, noutra boca, a gente descobre que nada é nada. E que se dorme em aula quando nos contam um teorema sem vibrar os olhos, ou nos leem um poema sem insuflar o peito. E a gente, desiludido, se repara como quem vive a perseguir o nada.
Por isso que gosto dos que me fazem vibrar; e digo, gosto de conhecer para apreender a melhor vibrar. Gosto da palavra extendida ao infinito da sua graça, porque é graciosa e engraçada. E se me ensinam o alfabeto grego, o cirilíco, e mils kanji é sim, sim senhor, por que me mastubar em 26 letras é pouco e escasso: quero cruzar as palavras de todos os cantos. É para chorar um amor em versos líricos e mais tarde em irônia besta; para saber o sólido geométrico que melhor se encaixa na minha tristeza; para saber as etimologias, pra rir dos pedros, coitados, que são pedra;
Por que ficar como beatificado; como Estilita; ficar sentado no gabinete, contando orgulhoso a autoridade moral intelectual, a certeza objetiva dos fatos.
quem ainda quer ler o mundo? como se tivesse coisa pra ler. Nem faz 11 anos leram, um entre outros mil: o mundo acabaria. Coisa pior, sem mitologias: não percebem recalcada mesmo na certeza objetiva dos fatos a suposição de uma redenção mal assumida . Se empanturram de números, se esquadrinham em gráficos e eixos e mesmo assim não enxergam a imensa cruz. Sonham: Sair da caverna com um gesto heróico, ver dobrar o espaço rendido em apokálypsis, ver o revelar da farsa: a caverna dismanchar-se em planos não cartesianos, o tempo, desembaraçar-se. Mas bem, Não há redenção: O demiurgo não pensou nos fogos e não há plano por se manifestar, quando sair da caverna, anda-se em circulos. Não tocam sinos, não descem quatro cavaleiros, nem surge, dos céus,a tal da puta da babilônia.
Para que então, reter-se, mortificar-se à espera de...
por que cultivar a redenção oculta no estudo dos algoritimos, nas funções numéricas. alguém avise, A máquina do mundo não vai se abrir, o gabinete não será invadido por cachorros falantes; e não, não haverá pacto que resolva. Já se leu tudo e se fez, sem piada, uma bíblia, nem por isso a redenção chegou. Querem continuar a resmungar objetividade, como quem resmunga a certeza da volta de Cristo? vão desenrolar ao infinito o perímetro da circunfêrencia: vão andar em circulos rigorosamente.
Ora, na ausência de explosões, sem dragões, pelo menos que nos divertêmos com o entrar e o sair da caverna. Deixem que se projetem todo um teatro nas sombras; não amolem, não encham o saco. Usem, pelo amor de deus, o saber oculto do mundo de lá para projetar deliciosas fodas, que se foda que sejam sombras. Façam como as criança e projetem tosquíssimos animais feitos com o contorcionismo das mãos.
Fiquem ai os disciplinados leitores, os ascéticos cientistas, circulando suas esferas, andando seus circulos à espera do seu cristo numérico. Vão perder o show das luzes e das sombras.
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