O olho que olha o mundo às vezes se deixa levar pelas maledicências das línguas atrevidas e arrogantes, e sai traçando aqui e ali, riscando o lustroso mundo, essas malditas linhas. É obra do dito-cujo linguarudo, isso de ver o mundo cortado por qualquer coisa como um limite e um fim. O olho que olha com os olhos, não com a língua, vê as formas dançantes e indomáveis, meio confusas num todo uno. O mundo é um só. Mas, algum primata rudimentar decidiu grunhir, e fez da pedra, a pedra; do céu, o céu; do fogo, o fogo. Viu-se surgir então, do além ou de algum outro lugar mais abaixo, essas insaciáveis, ubíquas e taxativas linhas. Delimitaram-se fronteiras e muros; cercaram-se e enclausuraram as cores, romperam os laços dançantes das suas afinidades ; condensaram umas, cindiram outras: fizeram da profusão e da riqueza dos tons de verde, uma folha; fizeram o azul do mar estranho ao azul do céu. Desde então o olho domesticado se entrega às cômodas linhas e vive resignado à tirania das totalizações da totalitária língua. As linhas não pertencem aos olhos, são execráveis, são arbitrariedades, são ilusórias. O real é uma única mancha, o sentimento único de uma visão, uma combinação em polvorosa, arisca e bárbara. O olho virgem enxerga um decalque, é a impressão crua do mundo. Daí a misticidade, é a incredulidade e o deslumbramento face a formas tão indômitas, tão únicas e simultâneas. A língua e a linhas turvam e riscam esse lustroso mundo, separam, dividem e nomeiam com a única pretensão da anunciar uma falsa unidade. De se dizer soberanas, senhoras, de se passarem pelo próprio real, e assim fazem do mundo passivo e submisso. Os olhos colonizados pela linha são olhos resignados, acomodados, vencidos. A língua e a linha são um só, ou senão que são essas minhocas que tanto dizem e significam? Essas que os olhos, tão desgastados pela espoliação colonial, lêem e já não veem. Cômodo fetichismo, mágica ilusão, essa de transformar imagem em texto: do ato de ver, no de ler. A língua é senhora, a linha seu capataz. Assim se domestica, assim se descanta o mundo
Mas aquele que submete, se degenera tanto quanto o submetido: A linha em sua pureza, virgem e imaculada – antes de sangrar o mundo, a linha dentre outras linhas, a linha no paraíso das linhas; antes de cercar e delimitar, a linha etérea, solitária, e satisfeita sendo somente linha -- essa linha encanta. … Encanta porque não encerra, não enquadra, não cerceia, não delimita; porque singela, porque não pretende, porque não se contenta, e se curva ao mundo. Para essa linha etérea e encantada, os olhos não se enrigessem e se constrangem, mas dançam... Dançam a dança das minhocas dançantes. Elas são caminhos, são percursos, são veredas. São o movimento. Porque toda linha tem um sentido, toda linha tem uma ambição e toda ambição é um devir. E o círculo é uma reta sem ambição. Viva aquele Milton que virou Millôr. Miguel pros infernos, Millôr é genio sim. Diniz e Leco na Sargeta. Robert Crumb Mediocre.
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